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Manifesto pela titularidade do <i>Mustang</i>

David Guimarães · 4 min

Manifesto pela titularidade do <i>Mustang</i>

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a minha eternidade

Ricardo Quaresma deve ser titular no Futebol Clube do Porto. Este jogador deve alinhar de início na maior parte dos jogos. O meu manifesto não está directamente relacionado com a ida de Yacine Brahimi para a Taça das Nações Africanas. Mesmo com a disponibilidade total do astro argelino, julgo que o “Harry Potter” azul e branco é a melhor solução para actuar como extremo no 4-3-3 de Julen Lopetegui.

Faço esta afirmação peremptória porque considero Quaresma o melhor extremo portista. Fazendo uma análise cuidada à dinâmica individual e movimentações dos outros avançados, vejo este artista português como o único com real capacidade para jogar bem aberto, calcando a linha de fundo, traçando cruzamentos de régua e esquadro para a finalização no interior da área. É um solista na arte da faixa, local onde explana todo o seu génio.

Dissecando agora os seus concorrentes, de elevadíssimo nível, por sinal, considero que nenhum “vive apaziguado” junto à linha lateral. O fantasista argelino Brahimi tem estado exímio na grande maioria dos jogos, mas necessita impreterivelmente de pisar zonas interiores para desequilibrar. A sua enclausura na faixa descaracteriza-o, tornando-o um jogador menos perigoso. Embora não perdendo a capacidade de recepção e drible, não está vocacionado para cruzamentos; recebendo aberto, fica muito longe da baliza, onde é necessário estar para explanar a sua enorme qualidade. Este craque já percebeu que para ser uma referência mundial tem de marcar bastantes golos – não pode facturar apenas de vez em quando, tem de ser regular na finalização.

Brahimi não é um puro jogador de faixa  Fonte: Facebook oficial do FC Porto
Brahimi não é um puro jogador de faixa
Fonte: Facebook oficial do FC Porto

Tello até tem aparecido um pouco melhor do que o argelino quando joga encostado à linha lateral. Tem sido o maior assistente da equipa e devo referir isso. Julgo, porém, que o extremo se tem refugiado na linha menos por vocação e mais por desconfiança. Quando o espanhol tenta invadir zonas interiores, as coisas não lhe têm saído bem. Por diversas vezes, quando deve fintar, passa; quando teria de assistir, remata; quando era imperativo rematar à baliza, trava e joga em apoios. Não tem decidido bem na maior parte dos lances. Apesar das assistências, tem de ganhar confiança para se articular melhor com os médios e com Jackson, aparecendo mais vezes no centro do terreno, como fazia no Barça (desmarcações interiores constantes).

Ádrian López não é um concorrente credível. Já anteriormente escrevi que o espanhol é um bom segundo avançado e que como extremo não é muito perigoso. O elevado preço que custou e a incapacidade de implantação de um sistema de 4-4-2 serão as principais razões para vermos este jogador na linha e não, infelizmente, por possuir as aptidões indicadas.

O jovem extremo Ricardo é muito bom jogador, parecendo ter boas características para jogar aberto também. Mesmo não sendo o típico jogador de faixa, como é Quaresma, sente-se bem nesses terrenos, embora apareça bem por dentro para visar as redes adversárias. A grande concorrência do plantel este ano impede-o de ter uma participação mais regular na equipa.

Por último, temos Kelvin, para mim um jogador monumental, em nada inferior (pelo menos do ponto de vista técnico) ao trio mais destacado (Quaresma, Tello e Brahimi). Não sei as razões para quase nunca jogar. Se a explicação for ao nível da qualidade, não compreendo nem aceito. Se tiver que ver com algum aspecto motivacional ou comportamental, talvez se justifique a ausência. O que é facto é que não tem jogado e não me parece que se vá tornar um jogador relevante na equipa neste contexto.

Quaresma dá ao Porto nuances tácticas imprescindíveis para um modelo de jogo com mais soluções  Fonte: Facebook oficial do FC Porto
Quaresma dá ao Porto nuances tácticas imprescindíveis para um modelo de jogo com mais soluções
Fonte: Facebook oficial do FC Porto

Importa fazer também uma análise mais conjuntural, que explique esta razia de extremos abertos, sendo Quaresma um exemplar em vias de extinção. Nestes últimos anos, treinadores e jogadores têm como referência o modelo do Barça de Guardiola, que criou a escola do falso 9, com dois extremos a jogar por dentro. Como bitola mais individual, o jogador a imitar é Cristiano Ronaldo, uma “máquina temível” que se movimenta a toda a largura do campo, finalizando de qualquer zona. Isto explica, em parte, a não réplica de comportamentos típicos de faixa, como se vislumbrava, há uns anos atrás, no jogo de Figo ou Sérgio Conceição, entre outros.

Numa análise sistémica aos princípios do Porto actual, a aposta em Quaresma faz todo o sentido. Mesmo para aqueles (tolhidos) que não lhe reconhecem grande qualidade, perceberão, talvez, a sua raridade. Quaresma é o único jogador que permite nuances tácticas cruciais e as articulações complementares necessárias. Apenas com a sua inclusão, o Porto pode jogar com um extremo interior e um extremo aberto com qualidade de jogo inatacável. Com este jogador o Porto fica mais completo em termos tácticos, com mais soluções, mais criativo e imprevisível. Esta minha opinião nem se prende meramente com as aptidões técnicas individuais, visto que o Porto tem avançados exímios. Quaresma faz inegável sentido para um modelo de jogo com soluções múltiplas. Só ele as pode dar.

Este jogador é primordial nesta época para o Porto. Lopetegui, depois de perder o clássico contra o eterno rival Benfica, deveria concluir isto.

Foto de Capa: Facebook oficial do FC Porto

David Guimarães

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