Enfermidades sadias

- Advertisement -

Toda a minha vida tentei perceber onde nasciam e como fluíam estes rios de paixões que carrego comigo desde novo. Hoje, mais do que nunca, e a cada dia que passa, preocupo-me é em navegá-los. Isso basta-me. Em 22 anos, de perder a conta foram as vezes em que não neguei a mim mesmo gritos, festejos, choros e desesperos em público ou na solidão de quatro paredes brancas. Chamo-me Tiago Martins e tenho uma doença grave: sou Benfiquista.

Não sei dizer como cheguei até aqui. O que falhou. O que bateu certo. Quem ou o que falou mais alto. Talvez tudo. Talvez nada. Sei é que não há volta a dar. Que é demasiado forte a falta de força que tenho dentro de mim para tentar remeter a um qualquer canto escuro esta paixão desmesurada e que tantos problemas traz. Hoje a minha namorada já não me suporta. Os vizinhos batem-me nas paredes. Os meus amigos vão desistindo de mim. Os meus pais já não fazem jantar nem aos fins-de-semana nem às terças. E até a minha própria gata já padece de um distúrbio psico-nervoso sempre que me vê em frente à televisão. Chamo-me Tiago Martins e tenho uma doença grave: sou Benfiquista.

Desde pequeno que isto me afecta. Porque nunca quis desiludir ninguém. A verdade é que sou filho de lagarto e neto de águia. E também neto de pasteleiro, se contar com a muito discreta paixão do meu avô paterno ao Belenenses. Durante meio ano, que me lembre, ainda fui inconsequente e ingénuo o suficiente para acreditar que seria possível conjugar vermelho e verde no mesmo coração. Nas mesmas veias. Ridículo. Vergonhoso. Mas o coração tem razões que a própria razão desconhece. Já dizia Pascal. E Jesus. A tentar agradar a todo o mundo familiar acabei por me deixar influenciar e encantar pelos sempre saudáveis mas entusiásticos festejos encarnados do meu avô materno. Não era de mais. Nem de menos. Era o suficiente. Belo o suficiente. Apaixonado o suficiente. Dedicado o suficiente. Leal o suficiente. Memorável o suficiente. E assim cresci. E assim me apaixonei e dediquei. Me tornei leal e nunca mais esqueci nem esqueço. Chamo-me Tiago Martins e tenho uma doença grave: sou Benfiquista.

Gravo na memória e espelho num sorriso meio infantil os pontapés que aprendi a dar com ele. Fui uma criança feliz com ele e graças a ele. E o Benfica acompanhou-nos sempre, nessas aventuras meio aparvalhadas que nós homens tanto gostamos de arrastar e levar connosco vida afora. Golo aqui, golo acolá. Frango ali, frango na mesa para ver o jogo. Nunca vimos muitos, mas vimos os suficientes. E esse amor que partilhamos e partilhámos sempre, uniu-nos de formas incompreensíveis para muitos descrentes. Porque a crença é o que fizermos dela e o que ela fizer de nós. Sei que a primeira vez que gritei “Campeões!” o meu avô tinha ido para o hospital, depois de um acidente caseiro em tudo dispensável e evitável. Lembro-me que não fui com ele porque o jogo contra o Boavista era dali a umas horas e eu até já tinha comprado um cachecol para festejar mais logo.

“O” cachecol que ainda hoje uso com orgulho e ao qual já limpei algumas incompreensíveis e irracionais lágrimas. O mesmo que uso num ritual ainda menos compreensível e ajustado emocionalmente sempre que vou ao Inferno. Lembro-me que bastou o empate – muito sofrido – e que festejei na Rinchoa, com os pezinhos de criança pré-adolescente equilibrados em cima de um pequeno muro e aos saltos sempre que passava um carro a apitar. Fui feliz nessa noite, mesmo tendo o coração nas mãos por não saber como estava ou como ficaria o meu avô. Ficou bem. E festejou também. Anos mais tarde, e há relativamente pouco tempo, levei-o ao tal Inferno. De forma meio paradoxal tive medo que ateísticamente conhecesse o céu sem nunca passarmos por aquelas portas juntos. Vimos seis golos contra o Desportivo das Aves. E eu vi um sorriso pacífico na sua face. Para que serve mais o futebol?

Chamo-me Tiago Martins e tenho uma doença grave: sou Benfiquista. E sou feliz.

Foto de Capa: Carlos Silva / Bola na Rede

Subscreve!

Artigos Populares

Curaçau goleado: Quando foi a última vez que uma equipa estreante sofreu 7+ golos num Mundial?

1954 foi a última vez que uma equipa estreante sofreu sete golos ou mais no primeiro jogo disputado num Mundial.

Atlético de Madrid também avança por lateral esquerdo: ex-Benfica na calha

O Atlético Madrid negoceia a compra de Alejandro Grimaldo. Os madrilenos querem contratar o espanhol e oferecem um contrato até 2030.

Alemanha faz de Curaçau o que já fez com o Brasil e 7-1 é passo importante para evitar pesadelo de 2018 e 2022 no...

A Alemanha goleou a seleção do Curaçau na estreia no Mundial 2026. Jogo histórico para os dois lados.

FIFA esclarece regras de idiomas e justifica falha do VAR no Mundial 2026

A FIFA justifica um erro do VAR no jogo do Catar. A entidade garante o uso do espanhol nas salas de imprensa em 2026.

PUB

Mais Artigos Populares

Famalicão interessado em internacional húngaro: Eis os detalhes

O Famalicão quer contratar Tamás Szucs ao Debreceni. Os famalicenses têm concorrência de Pógon e Génova.

FC Porto bate Benfica e é campeão nacional de Basquetebol, 10 anos depois

O FC Porto conquistou a Liga de Basquetebol. Dragões venceram o Benfica por 3-1 na final dos playoffs e sagraram-se campeões nacionais.

Tiago Margarido na mira de Rui Rodrigues para assumir o comando técnico do Vitória SC

Rui Rodrigues quer contratar Tiago Margarido para o comando técnico do Vitória SC. O novo presidente vai falar com Gil Lameiras.