O Benfica de Alvalade

Por Pedro Beleza Fevereiro 12, 2015, em SL Benfica

O Benfica de Alvalade

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O jogo de Alvalade, apesar de aborrecido e facilmente resumível, esconde mais da complexidade tática da partida (e de muitas outras vertentes) do que à primeira vista poderemos pensar. Sobre a pele nua de um Benfica que jogou claramente para não perder, existe uma camada invisível que explica perfeitamente o porquê de o Benfica ser, neste momento, o mais forte dos três candidatos à conquista do Campeonato Nacional.

Do grande dérbi do futebol português, só o Sporting seria um justo vencedor. Porém, ao contrario do que foi pintado, numa tela que vinha sendo preparada durante toda a semana, o Sporting esteve longe, bem longe, de ser avassalador. Até porque, comparar a forma como o Benfica atuou e defendeu com o estilo ultra defensivo de um Arouca ou de um Boavista é um ultraje à excelente organização e colocação dos jogadores do Benfica, que jogou com o bloco alto e linhas juntas (à imagem do jogo do Dragão, frente ao FC Porto, na primeira volta).

Jogando em casa, perante um público crente na vitória, e com a possibilidade de ficar apenas a quatro pontos da liderança (depois de uma diferença de dez pontos), a ideia de um Sporting forte, motivado e confiante era facilmente imaginável. Jorge Jesus receou uma avalanche ofensiva verde e branca na ânsia pelo golo. Ao bloquear um golo cedo do adversário, Jorge Jesus sabia que, se o Benfica chegasse primeiro à vantagem, teria todas as condições para sair de Alvalade com uma vitória. A diferença do jogo de Alvalade para o do Dragão é que o Benfica foi incapaz de chegar ao golo, muito por mérito do Sporting. Ao contrário do FC Porto, o Sporting nunca deixou o Benfica sair com a bola controlada e raramente deu espaço aos alas benfiquistas. Diferente, também, do FC Porto foi a pressão alta da linha da frente leonina, obrigando os laterais e os centrais do Benfica a cometerem vários erros na saída da defesa. Esse é, aliás, uma das grandes falhas do sistema de Jorge Jesus: o Benfica provou, ao longo destes seis anos, que tem imensas dificuldades perante equipas que pressionam alto.

A ideia de incorporar André Almeida e Samaris no miolo reforça a importância que o treinador do Benfica deu à dinâmica do meio-campo leonino. Para além da estampa física, André Almeida e Samaris permitiram ao Benfica fazer uma excelente contenção aos médios do Sporting, evitando grande rasgos pelo centro de terreno. Sem Adrien e João Mário em evidência, coube a William Carvalho, obrigatoriamente, fluir o jogo para as laterais, onde, com Carrillo e Nani, o Sporting é fortíssimo. Mas o Benfica foi muito bem preparado para as incursões dos rapidíssimos alas leoninos, que, salvo algumas exceções, raramente ultrapassaram a defesa encarnada.

Muito duelo físico e pouco futebol no derby de Alvalade Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

Muito duelo físico e pouco futebol no derby de Alvalade
Fonte: Facebook do Sport Lisboa e Benfica

De forma simples, as equipas anularam-se uma à outra com grande eficácia. Daí o jogo enfadonho e sem rasgos. Sem espaço ao meio-campo, a bola naturalmente circulava entre o setor defensivo de ambas as equipas. Os números não enganam e provam o equilíbrio tático, uma vez que no top quatro dos jogadores com mais passes efetuados na partida predomina, em ambas as equipas, jogadores de cariz defensivo: Sporting – Paulo Oliveira (32), Adrien (30), William Carvalho (29), Tobias Figueiredo (28); Benfica – Samaris (33), André Almeida (29), Jardel (27), Luisão (25).

A percentagem final de posse de bola de 55% para o Sporting e de 45% para o Benfica explica-se pelo maior acerto no passe, em média, dos jogadores leoninos comparativamente aos do Benfica. Este é um dado que mais uma vez reflete a personalidade tática de ambas as equipas. A diferença entre a posse de bola resume-se no critério e na qualidade de transporte. O Benfica não joga com apoios, tem um futebol vertical e usa, excessivamente, as laterais para subir no terreno (é nos corredores, alias, onde existe maior apoio entre os jogadores encarnados, como é facilmente percetível nas jogadas entre Maxi e Salvio). Este estilo de jogo individualista é, para o bem e para o mal, demasiado imprevisível. Basta um jogo de menor inspiração individual ou de grande acerto defensivo por parte do adversário, como foi o caso, e os encarnados ficam órfãos de criatividade, tornando-se uma equipa incapaz de criar verdadeiras jogadas de perigo. Com Sálvio e Ola John completamente evaporados do jogo, sempre que os extremos recebiam a bola eram praticamente engolidos por dois ou três jogadores do Sporting. Sem apoios e sem linhas de passe, rapidamente perdiam a bola novamente para os leões. Do lado contrário, o Sporting teve sempre mais qualidade na posse de bola, optando ora por passes curtos, sempre em apoio, ora por passes largos (principalmente por William), virando de flanco e tentando ao máximo desposicionar a defesa encarnada. Conseguiram-no em poucas situações, é verdade, mas essa é a principal razão para a maior aptidão ofensiva do Sporting e que explica a superioridade verde e branca no número de ataques (125 – 120), de remates (5-4) e de cantos (10 – 1).

Tal como afirmei anteriormente, o Sporting foi superior, mas não o foi de forma que escandalosamente envergonhe o empate registado no final da partida. Longe disso. Não querendo tirar mérito ao golo de Jardel e à crença da equipa do Benfica, obviamente que marcar um golo aos 93 minutos, no último lance da partida, é ter sorte. O que aconteceu até aos 87 minutos, momento do golo do Sporting, está longe de qualquer fator de fortuna.

Honestamente, e sendo um defensor eterno do futebol de ataque e de linhas altas, creio que Jorge Jesus optou por resguardar a sua equipa de uma derrota que, pensando bem, seria pesadíssima (ainda mais) para a equipa depois da recente perda dos três pontos em Paços de Ferreira. Acredito piamente que o treinador encarnado defendeu ao máximo (e literalmente) os interesses do clube, e é neste singular detalhe que encontramos a grande evolução de Jorge Jesus ao longo dos seis anos à frente do emblema da Luz. Hoje, Jorge Jesus é um treinador mais consciente do valor dos seus jogadores, reconhece muito melhor as virtudes dos adversários e tornou-se num treinador taticamente mais humilde – e reforço o taticamente, apenas.

Se, nos primeiros anos, o Benfica de Jorge Jesus era ofensivamente vertiginoso e permeável a nível defensivo, o treinador português parece ter encontrado o equilíbrio perfeito e tornou o Benfica na equipa mais sólida e consistente do campeonato português. Se verificarmos que desde Maio do ano passado, Jorge Jesus perdeu Garay, Markovic, Siqueira, Oblak, Garay, Enzo Pérez, Cardozo e Rodrigo é de facto inquestionável o trabalho exemplar do treinador do Benfica ao longo desta época. Tal como tinha dito há algumas semanas atrás, apesar das decisões menos acertadas que toma durante o decorrer dos jogos, Jorge Jesus é um dos melhores treinadores do mundo no que toca à preparação tática das suas equipas. O jogo de Alvalade, e também do Dragão, é a grande prova disso mesmo, ainda que grande parte dos benfiquistas não tenham apreciado o estilo defensivo e prefiram um jogo mais vistoso.

Jorge Jesus transformou-se num estratega. Em Maio saberemos se a estratégia foi a correta.

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Pedro Beleza

Benfiquista até ao último osso, mudou-se do Norte para Lisboa para poder ver o seu Benfica e só depois estudar Jornalismo. O Pedro é, acima de tudo, apaixonado pelo desporto rei e não perde uma oportunidade de ver um bom jogo de futebol.                                                                                                                                                 O Pedro escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.
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As razões são óbvias com o segundo golo sofrido, no Bessa, a deitar fora 3 pontos importantes. Precisa ainda muito de crescer para ganhar a titularidade no Benfica.