O Herói de Sines – Entrevista a Márcio Madeira

Por Emanuel Melo Abril 20, 2017, em Entrevista BnR

O Herói de Sines – Entrevista a Márcio Madeira

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O futebol de hoje em dia, é cada vez mais corrompido pelo dinheiro. Longe vão os tempos onde vários jogadores permaneciam a carreira toda no clube de formação. Se em Itália há Francesco Totti, em Portugal há Márcio Madeira. O jogador de Sines, formado no Vasco da Gama, abdicou de tudo, para voltar a ser feliz na terra que lhe viu nascer. Márcio Madeira é hoje um verdadeiro exemplo de que o amor à camisola ainda existe, felizmente.

Bola na Rede: Márcio, num mundo do futebol onde impera o dinheiro, as contratações milionárias, as trocas constantes de clubes, você consegue fugir a este paradigma. Como é que começou a sua carreira no Vasco da Gama e porque razão quis voltar a “casa” ? Puro amor à camisola?

Márcio Madeira: Comecei a jogar futebol no Vasco da Gama com 10 anos, na altura não havia equipa de infantis e fui fazer as captações com os iniciados que era o escalão acima. As coisas correram bem e fiquei na equipa, jogava pouco pois os meus colegas tinham 13 ou 14 anos mas foi importante para mim estar entre os mais velhos. A razão do meu regresso teve a ver com o falecimento da minha Mãe, foi uma altura complicada para mim a nível emocional e necessitei de voltar a casa para estar junto da minha família que passava por uma fase difícil na altura. Foi algo natural e que ganhou uma dimensão que não esperava, mas como já referi algumas vezes, vivemos numa sociedade com os valores alterados, o que eu fiz foi o mais normal possível de quem está a sofrer a dor de um luto, recorri e apoiei-me no meu pai, nos meus irmãos e nos meus amigos de infância.

BnR: Atravessou um momento difícil na carreira. Quer nos explicar como aconteceu e de que forma ultrapassou isso?

MM: Na altura estava no Nacional quando tive o primeiro impacto, o diagnóstico da doença que a minha Mãe sofria foi como um murro no estomago que me levou ao tapete a mim e à minha família. Foram alguns anos de uma luta dura e muito sofrida que terminou da pior forma. Ninguém se prepara para perder quem mais ama. Por muito que nos digam ou que nos façam entender nunca se está preparado. Gostava de vos explicar como se ultrapassa a situação mas a verdade é que ainda não a ultrapassei logo também não vos sei dizer. Vou sobrevivendo e lidando o melhor que posso com as muitas saudades que tenho.

BnR: Pretende continuar no Vasco da Gama por muitos anos? Acha que há condições para o clube conseguir subir degraus?

MM: Não gosto de fazer planos a longo prazo, acho que sou a prova viva de que isso nem sempre resulta como pensamos, se me perguntasse há alguns anos atrás se eu estaria onde estou hoje com 31 anos, eu dir-lhe-ia que não. Mas a vida tem esta magia, leva-nos por caminhos que julgamos não ser possíveis e por escolhas que nem sempre dependem só da nossa vontade. Respondo-lhe dizendo que nesta altura estou muito feliz aqui e que espero ficar por muitos e bons anos, chegará o dia em que não conseguirei ajudar mais dentro de campo mas fora serei sempre uma mais valia.

BnR: Foi você que veio ajudar o Vasco da Gama, ou o Vasco da Gama que o ajudou a si?

MM: Numa primeira fase sem duvida que o Vasco da Gama é que me ajudou, deixaram-me treinar mesmo sem saber se eu aceitaria jogar, e mais tarde quando aceitei trataram-me sempre com muito carinho, ainda hoje o fazem. Eu só lhes trouxe a visibilidade que tiveram outrora, nada de novo portanto. Não desequilibrava como hoje faço talvez porque eu também estava desequilibrado emocionalmente. Encontrei de novo a estabilidade aqui e depois claro fiz e faço o que melhor sei.

BnR: Não acha que teria condições para jogar num clube de primeira ou Segunda Liga?

MM: Nesta altura tenho bastantes dúvidas, adaptei-me ao futebol distrital e ganhei outras qualidades que talvez na I ou na II Liga não sejam tão valorizadas. Perdi outras que tinha porque aqui não utilizava tanto. E a questão física, acho que nesta altura não tenho condições físicas para jogar profissionalmente, aqui treinamos muito menos vezes que o necessário para estar noutros patamares. A vida é fértil em surpresas mas acho que já não me guarda nenhuma desse género.

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Emanuel Melo
O Emanuel está no terceiro ano da licenciatura em Comunicação Social e Cultura. Vem da terra do Pauleta, das paisagens deslumbrantes e do queijo Terra Nostra. Benfiquista desde que se conhece. Gosta de ver a Premier League e espera um dia poder vir a ser relatador de futebol.                                                                                                                                                 O Emanuel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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