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Pedro Farromba é o Presidente da Federação de Desportos de Inverno de Portugal e tem levado a cabo a difícil tarefa de fazer crescer modalidades ainda pouco divulgadas no nosso país. Nesta entrevista de rescaldo das Olimpíadas de PyeongChang 2018 e projeção do futuro dos Desportos de Inverno lusitanos, fala-nos do caminho ainda a percorrer para chegarmos às medalhas.

Bola na Rede: Comecemos pelo tema mais atual, os Jogos Olímpicos 2018. O primeiro português a competir foi o Kequyen Lam, que tem uma impressionante história de vida e até se tornou o mais velho representante nacional nos Jogos de Inverno. Partilha da visão de que, neste caso, só a participação já foi uma vitória?

Pedro Farromba: Bem, se nós olharmos para os milhares de atletas em todas as modalidades que tentam a qualificação e não conseguem, aqueles que se conseguem qualificar é, de facto, já uma vitória. Porque, grosso modo, os dois mil e tal atletas que estão nuns Jogos Olímpicos são aqueles que já se conseguiram superar e já conseguiram ter melhores resultados que muitos outros para se conseguirem qualificar. Desse ponto de vista, eu diria que sim, que já é uma vitória. 

Agora, obviamente, quando nós sentimos que estamos a fazer um trabalho sólido e positivo no desenvolvimento das modalidades, começamos a querer mais um bocadinho, portanto, queremos começar a olhar também para a classificação com outros olhos. Agora, realmente concordo, o facto de um atleta chegar aos Jogos Olímpicos, pela quantidade de desafios que ele tem de superar, pela quantidade de outros atletas que tentaram, já é uma vitória.

A comitiva nacional nos Jogos de PyeongChang 2018
Fonte: Pedro Farromba

BnR: O outro represente foi o Arthur Hanse que já é um repetente e que teve resultados positivos para o que é o panorama nacional. Como é que estes resultados se comparam com os objetivos que haviam delineado?

PF: Nós tínhamos definido, grosso modo, dois objetivos. Ou eu diria até três se considerarmos um objetivo mais lato, o de representarmos dignamente o nosso país. Se considerarmos esse, acho que o fizemos muito bem feito. Os outros dois objetivos mais quantitativos eram o de melhorar a classificação da última vez que um português tinha participado em Cross-country e o outro objetivo era que o Arthur ficasse, numa das duas provas, nos 50 primeiros. E, portanto, conseguimos os dois objetivos. Foram os objetivos que foram definidos junto do Comité Olímpico e conseguimos fazê-lo. 

Quanto ao Kequyen, a última vez que Portugal tinha participado nessa competição tinha ficado em último e não foi isso que aconteceu desta vez. E o Arthur conseguiu ficar em 66º no slalom gigante e em 38º no slalom, portanto, cumprimos aquilo que tinham sido os objetivos que tínhamos definido e, nesse ponto de vista, a missão foi um sucesso, porque cumprimos aquilo que tínhamos delineado como objetivos para a nossa participação.

BnR: Uma constante destas últimas participações portuguesas tem sido o recurso a luso-descendentes, o que, por vezes, divide a opinião do público em geral. Explique-nos o racional adjacente a esta aposta.  

PF: Eu respondo-lhe da seguinte maneira, com o devido respeito: William Carvalho, Adrien Silva, Anthony Lopes, Raphael Guerreiro, Éder. São jogadores de futebol que ganharam o campeonato da Europa de futebol. Nós hoje vivemos num mundo global, por isso, o nome ou a forma como dizemos o nome… nós hoje temos muitos portugueses que põe nomes estrangeiros aos filhos. 

Não vejo que seja por aí. No futebol é assim, o Ronaldo se tivesse continuado a jogar em Portugal seguramente não seria o melhor do mundo. Foi o melhor do mundo porque foi jogar para os melhores campeonatos do mundo, o Nelson Évora treina em Espanha. Portanto, eu não vejo mal de no ski, que ainda por cima tem uma especificidade de só poder ser praticado em locais onde há neve, onde há pistas, onde há extensão, onde há declive, onde estão reunidas as condições, não vejo qual o problema dos nossos atletas serem luso-descendentes.

BnR: Nesse contexto, abrindo um bocado o horizonte, como Presidente de uma Federação, sente que há um Portugal a duas velocidades e que, quer por mediatismo, quer por melhor capacidade de lobby, as várias modalidades são tratadas de forma diferente pelo Estado?

PF: Eu não diria pelo Estado, eu diria que é uma consequência daquilo que é o gosto que as pessoas têm pelas modalidades. Se nos Estados Unidos o Futebol Americano e o Basebol representam muito mais que o nosso Futebol, o Soccer, se no Canadá o Hóquei no Gelo representa mais que o Futebol, se na Áustria ou na Suíça o Ski representa mais que as outras modalidades, tem a haver com aquilo que as pessoas, que os locais, que os residentes nesses países mais apreciam. 

E, portanto, é natural que sendo Portugal um país do Futebol, este tenha sempre um relevo que não têm as outras modalidades, mas a nós que temos estas responsabilidades em modalidades com menos aceitação popular, digamos assim, com menos representatividade popular, cabe-nos também fazer esse trabalho, de darmos mais credibilidade aos nossos projetos, de conseguirmos maior notoriedade. 

Mas é sempre uma pescadinha de rabo na boca, não é? Porque se nós não tivermos notoriedade, não conseguimos apoios. Mas também se não tivermos apoios, não conseguimos notoriedade. E se não tivermos as duas coisas juntas, não conseguimos resultados. Portanto, é óbvio que é sempre um desafio que nós vamos tendo que ter ao longo da vida, mas é daquelas coisas que nós podemos chorar por elas ou podemos usá-las como forma de nos auto-superarmos e eu acredito mais na segunda.

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