Qual será a melhor seleção nacional de sempre? Espanha de 2010? França de 1998? Argentina de 1986, ou, a bem dizer, de Maradona? Talvez até seja Holanda de Cruyff, perdão, de 1974, que perdeu na final frente à Alemanha.

Para quem se lembra do Mundial de 1970, no México, a resposta parece ser indiscutível: a melhor seleção nacional que o futebol alguma vez viu é o Brasil de Pelé, Jairzinho, Rivelino, Carlos Alberto e muitos outros. Antes da final de mais um Campeonato do Mundo – onde Croácia e França irão disputar um lugar ao lado destes gigantes do futebol -, olhamos para trás e vemos como foi a história de uma equipa que encantou o planeta.

Olhar hoje para o Mundial de 1970 é olhar para um mundo diferente, um jogo diferente: a relva cujo verde-rubro parece sobressair mais do que o de qualquer campo atual, os fotógrafos praticamente em cima do campo, sem quaisquer painéis publicitários a separá-los das quatro linhas, pois estes escondiam-se timidamente debaixo das bancadas onde dezenas – e por vezes centenas – de milhares de adeptos emitiam, em uníssono, um rugido sobrenatural. Para qualquer adepto de futebol, este é o postal turístico perfeito para o México.

Pelé celebra a conquista do seu último Mundial ao serviço da Canarinha
Fonte: FIFA

A magia ganha novo fulgor quando vemos a Canarinha jogar: naquele que foi o primeiro Mundial transmitido a cores, as camisolas brasileiras espalhavam o seu amarelo inigualável pelo mundo. E, mais importante, o seu futebol correspondia à beleza do equipamento. Além de Pelé, o camisola 10, a meses de celebrar o seu trigésimo aniversário e a jogar o seu quarto e último Campeonato do Mundo, os brasileiros contavam com muitas outras lendas. Por exemplo, Rivelino, cujos livres diretos se tornaram tão icónicos como o seu bigode, Jairzinho, “O Furacão”, alcunha devida ao seu poder de explosão, ou Carlos Alberto, o capitão, que jogou neste ano o seu único Mundial e marcou o seu único golo pela Seleção Brasileira – já falaremos dele mais adiante.

Como foi, então, esta caminhada? É importante recordar que o Brasil viera de uma saída precoce do Campeonato do Mundo de 1966, na Inglaterra. Num grupo com Portugal (liderado pelo «Pelé Europeu»: Eusébio) e Hungria, a Canarinha vergou-se perante o chamado power football – um estilo de jogo que favorecia a capacidade física dos jogadores, o que beneficiava particularmente as seleções europeias – e foi eliminada logo na primeira fase. Carlos Alberto considera que, de certa forma, esta humilhação foi necessária. Numa entrevista à FIFA TV, diz: “foi uma boa lição, porque quatro anos depois fizemos um trabalho de preparação física muito intenso. Tivemos três meses de treino para jogar aquela Taça”.

E, por sorte, por azar ou por destino, a Inglaterra, então campeã do Mundo, fora sorteada no grupo do Brasil, o grupo 3, que ainda contava com Roménia e Checoslováquia. Três seleções europeias, três hipóteses de vingança perante o power football. E assim foi: começando por bater os checoslovacos por 4-1, seguiram-se vitórias de 1-0 e 3-2 sobre os ingleses e os romenos, respetivamente. O Brasil passava, assim, aos quartos de final, onde eliminaria o Perú (4-2). Nas meias finais,  encontraria novamente uma formação latina, desta feita o Uruguai, que foi despachado com um resultado de 3-1. Assim, quando chegou a altura da final, às 12 horas do dia 21 de junho de 1970, no Estádio Azteca, na Ciudad de México, já todos sabiam o que significava ver aqueles rapazes de camisolas amarelas, calções azuis e meias brancas a jogar. Significava técnica, significava samba futebolísitco, significava poesia em movimento. A Canarinha conquistara o mundo e cabia aos italianos a ingrata tarefa de a tentar parar.

O XI inicial do Brasil na final do Mundial de 1970
Fonte: Gonçalo Taborda/Bola na Rede

Quando acabou a primeira parte, a squadra azzura estava a cumprir com o dever: o resultado era 1-1, após golos de Pelé (18 minutos) e Boninsegna (37’). Mas nos segundos 45 minutos, os 107412 espectadores do Estádio Azteca e os outros milhares que viam o jogo em casa teriam aquilo que estavam ali para ver: um espetáculo canarinho. Gerson, aos 66 minutos, encheu o pé e, de fora da área, colocou aquela clássica bola de pentágonos pretos e brancos no fundo das redes defendidas por Enrico Albertosi. O mesmo Gerson iria, aos 71 minutos, fazer um passe poucos metros depois da linha do meio campo que iria encontrar Pelé na grande área. «O Rei» cacebeceia para Jairzinho, que, com alguma sorte à mistura, engana o guarda redes,  faz o 3-1 e torna-se no primeiro jogador de sempre a marcar em todas as partidas de um Mundial (sete golos em seis jogos).

Aos 86 minutos, surge a coroação desta equipa; o momento que, muito provavelmente, a imortalizou. Após uma longa troca de bola, onde oito dos dez jogadores de campo do Brasil tocaram no esférico, Clodoaldo humilha – à falta de um termo mais adequado – quatro jogadores italianos, com nada mais que fintas de corpo, reviengas e talento puro, dá a bola a Rivelino, no flanco esquerdo, que passa para a entrada da área, onde Jairzinho a recebe. O melhor marcador do Brasil na competição dá o esférico a Pelé, que depois o encaminha para… ninguém, aparentemente. Isto porque, quando o histórico do futebol passa a bola, ela parece rebolar sem dono no canto direito da grande área italiana. Isto até que Carlos Alberto, o capitão, entra no ecrã e, sem dar tempo – a quem estava a ver em casa e aos italianos – para reagir, fuzila a baliza adversária, fazendo o 4-1 e colocando um ponto final perfeito à história mais bela que o futebol alguma vez contou. Uma campanha mágica acabara com um momento mágico, com o melhor golo de sempre numa final de um Campeonato do Mundo.

Carlos Alberto celebra o derradeiro golo do Mundial de 1970
Fonte: FIFA

Era o mesmo Carlos Alberto que iria, minutos depois, levantar o troféu Jules Rimet, consagrando o Tricampeonato do Brasil e de Pelé – o único jogador da história a conquistar três Mundiais. O conto de fadas fora escrito num campo de futebol e o mundo assistira com todo o agrado ao seu desenlace, àquele que talvez seja o melhor jogador de sempre, àquele que talvez tenha sido o melhor golo de sempre e àquela que é, sem dúvida, a melhor seleção de sempre.

Quem ganhar no dia 15 de julho no Estádio Luzhniki, em Moscovo, terá para sempre o seu nome gravado nos anais do futebol. Mas difcilmente conseguirá igualar o estatuto lendário que aqueles jogadores atingiram a 21 junho de 1970, no Estádio Azteca, na Ciudad de México.

 

Foto de Capa: FIFA
Artigo revisto por: Vanda Madeira Pinto

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