Ainda sou do tempo que o prémio de jogo, pela vitória, era uma sandes de courato e um sumol. Valores que me foram passados para distinguir as dificuldades de uma sociedade presa às fofocas e concentrada nas cantigas de maldizer. Hoje em dia, trocamos as sandes por meia dúzia de tostões furados e assim que se levanta uma nota há sempre uma mão que se estende. Tudo se move em função dos cifrões e quantos mais houver, maior é a concentração dos fuinhas. Parecem baratas que se reúnem numa saída de esgoto para permanecerem quentinhas.

Ainda sou do tempo que para haver um contrato de trabalho melhorado, o empregado tinha de ter mostrado serviço, tinha de passar por diferentes sacrifícios e situações para chegar a esse mérito. Hoje não, é literalmente exigido ao empregador uma melhoria de contrato sem qualquer sacrifício. É como ter um desenho animado a pedir à Marvel que o torne real só porque já passou na TV.

Ainda sou do tempo que os criados davam tudo pelos seus criadores, que a motivação era aliada ao sentimento imperial do prazer. Que os treinadores levavam chupas para se esquecerem de fumar. Que o Jesualdo Ferreira era adjunto do Toni como, um dia, José Peseiro foi adjunto do professor Carlos Queiroz. Quem não se lembra dos valores que o Real Madrid passou ao construir uma equipa de galácticos para ser treinada por um professor que… nunca tinha ganho NADA. Minto, venceu um de Mundial sub-20 onde tinha um jogador que afinal já era avô.

Ainda sou do tempo que a gratidão estava enraizada no perfil e na metodologia da aprendizagem. Hoje, o mais importante são as cores das chuteiras, se o preto combina com o amarelo, se se usa gel ou laca, se a foto do Instagram tem de ter mais brilho ou menos saturação.

Hoje, a ingratidão é semelhante às pitas loucas à procura de uma wild city para apanharem a sua primeira bebedeira numa viagem de finalistas. Sim Rafael Leão, esta analogia é para ti. Foi como se uma pita louca fosse para Tróia pensando estar em Palma de Maiorca ou julgar ser cool comer marisco por quinhentos escudos. Valor paga-se (!), não em dinheiro, mas em sentimento. “Violência não leva a lado nenhum” – mas (porra) rapaz, escolher um clube que na época passada os adeptos invadiram o campo para agredir os jogadores foi uma jogada de mestre. Nem o Cassano teria essa ideia brilhante!

Será que Nélson Évora não daria um bom defesa esquerdo ao Sporting?
Fonte Sporting CP

Ainda sou do tempo em que não era necessário escrever mentiras para se venderem notícias. Este verão até ao fecho do mercado assistimos a mais reconciliações, em dois meses, do que durante toda a emissão do programa, perdoa-me. Há quem diga que vão utilizar os exemplos de Jonas, Battaglia, entre outros, para reduzir o número de separações em Portugal. Marega será a capa dessa propaganda e também de uma marca de fraldas pela birra que faz ao não ter conseguido coligir mais dinheiro à sua conta bancária. Quem seria Marega se não fosse o Porto, pergunto?

Deixem-se de “floreados”, nem queiram tirar protagonismo ao suíno porque as sandes de courato fazem parte do meu passado e dos ensinamentos que me ajudaram a moldar e a crescer como homem numa odisseia de valores que pretendo passar às minhas próximas gerações.

Resumindo a primeira jornada, todos têm direito ao courato. Bas Dost esteve mais frio que um icebergue, Pizzi não precisou de ir a um oftalmologista e Aboubakar teve ajuda de um curandeiro para voltar a balançar a rede. Esperamos o fecho rápido do mercado, nós e o Bruno César para ver se continua a comer picanha agora com a ajuda do Jefferson.

Foto de Capa: As Receitas do Meu Pitucho

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

Comentários